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Com visitas reduzidas na pandemia, vinícolas de SC buscam alternativas para melhorar as vendas

Visitação corresponde a parte importante do faturamento. Empresas intensificaram comércio online e para supermercados, por exemplo

Desde que a pandemia começou, a recomendação é que as pessoas só saiam de casa se necessário. Esse aumento do tempo em confinamento acabou levando ao crescimento do consumo de vinho no país. Essa nova realidade afetou as vinícolas de Santa Catarina que têm parte do faturamento atrelado às visitas de turistas, especialmente desde março, quando começaram as restrições no estado por causa do coronavírus.

No primeiro semestre deste ano, as vendas de vinho brasileiro aumentaram mais de 50% em comparação com o mesmo período do ano passado, enquanto a importação da bebida e de espumantes cresceu 7,8%, segundo dados da Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-RS), com base em informações do Cadastro Vinícola.

Segundo o Sindivinho, sindicato que representa o setor, Santa Catarina tem 88 vinícolas registradas e 45 filiadas. A estimativa é que sejam produzidos 35 milhões de litros da bebida neste ano, de acordo com a entidade.

Com a queda brusca de público para fazer visitas e adquirir garrafas da bebida no local, as vinícolas catarinenses precisaram mudar as estratégias para se adaptar ao escasso número de turistas e, ainda assim, atender a demanda cada vez maior pela bebida milenar.

"Eu acho que da crise vem a oportunidade. O vinho é a bebida que acalenta o coração das pessoas. Com essa pandemia, a gente já não mantém esse contato social, então as pessoas estão intensificando o consumo", disse Matheus Damian, 36 anos, cuja família dele mantém a vinícola Casa del Nonno, em Urussanga, no Sul do estado, há 45 anos.

A queda no número de visitantes e a suspensão dos eventos promovidos pela empresa afetaram os negócios da vinícola, que produz cerca de 100 mil garrafas por ano de vinhos, espumantes e grappa (ou graspa), que é um aguardente de uva.

"Somos de pequeno porte e vinícolas assim são muito focadas em trazer o turista para dentro delas para conhecer o produto e depois fazer a venda direta no varejo do local. Com a pandemia, isso diminuiu muito. A gente chegava a receber grupo de 40 pessoas. Hoje, são grupos de quatro. Tivemos que fazer modificações", disse Damian.

As saídas encontradas foram intensificar as vendas no site da empresa, restaurantes, empórios, além de investir em redes sociais e em aplicativos de mensagens de texto, tudo na base do "acerto e erro", diz Damian. O foco atual da empresa é no vinho branco e espumante feitos com a peculiar uva Goethe.

"Ela é única no mundo, só tem 55 hectares de plantação no mundo e esses hectares ficam em Santa Catarina", orgulha-se Damian.

As vendas tiveram queda em março, abril e maio, e começaram a se recuperar em junho e julho, com ligeiro crescimento. Para tentar manter esse aquecimento, outra estratégia foi não aplicar o total do reajuste previsto para este ano, ainda que boa parte da produção dependa da cotação do dólar, que está alta. A vinícola manteve os seis funcionários fixos, assim como a previsão de contratações temporárias para a poda das plantas, que ocorrem sempre em agosto.

"Não está sendo um ano fácil, estamos trabalhando muito mais, com planejamento muito maior, pra poder vencer a crise", disse.

A queda no número de visitas não afeta somente as vinícolas menores. A Villa Francioni, em São Joaquim, na Serra Catarinense, que é considerada de médio porte, também sentiu os efeitos da pandemia, informou Nei Geraldo Rasera, de 36 anos, enólogo e diretor da empresa.

O faturamento da empresa que produz 120 mil garrafas de tintos, brancos, rosés e espumantes a partir de 11 variedades de uva, caiu em torno de 25%. A quantidade de público na visitações teve queda mais expressiva, 40%.

"A questão que mais nos afetou foi a parte de visitação e o varejo nessas visitas, que respondem por um percentual bastante expressivo de faturamento. Ficamos praticamente um mês fechados e quando reabriu, tinham as restrições. Estamos operando com 30% da capacidade para conseguir manter o distanciamento indicado", disse.

Rasera apontou ainda uma mudança no hábito de compra por parte dos consumidores. Antes, os canais de vendas bastante fortes eram loja especializada e restaurantes, que foram bastante afetados pela pandemia. Agora, foram reforçadas as vendas para pessoas físicas, redes de supermercados em Santa Catarina e outros estados e principalmente o comércio direto com o consumidor, por meio da televenda. E até o fim do ano, a ideia é abrir um site próprio.

A vinícola não chegou a demitir funcionários, mas deixou de fazer contratações previstas para este inverno. E as visitas, que eram de grupos de até 40 pessoas, agora são, no máximo, 15. O perfil dos visitantes também passou a ser outro.

"Uma coisa interessante é que mudou um pouco o público. Agora são pessoas com poder aquisitivo mais alto, que estavam acostumadas a viajar para fora do Brasil, e daí acabaram fazendo um turismo mais interno. Isso é uma coisa legal, porque muitas vezes as pessoas conhecem o mundo inteiro, mas não conhecem o Brasil. As restrições ajudaram um pouco nisso", disse.

Produção em SC

A produção de vinho catarinense é eclética, explica Stevan Grützmann Arcari, enólogo e pesquisador da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural (Epagri-SC), indo desde os feitos somente por lazer até os mais premiados vinhos finos.

"A gente tem primeiro uma produção de vinho artesanal espalhada no estado inteiro. Não tem um canto onde não se produza vinho artesanal. Aí desde vinho de gente urbana, que faz como hobby, até os coloniais mesmo, pessoal que tem um parreiral, produz um pouco de vinho", disse ele.

O estado é o quarto em área de produção e o segundo do país em processamento de uva. No total, 18 variedades representam 98% da fruta processada em Santa Catarina, segundo a Epagri. O Vale do Contestado, com o Roteiro Vale da Uva e do Vinho (municípios de Videira, Tangará e Pinheiro Preto), e a Serra são dois dos destaques.

O Vale tem a maior concentração da produção industrial de vinho. Somente em Pinheiro Preto, de população estimada de 3,5 mil pessoas, concentra mais de 20 vinícolas - incluindo as maiores do estado -- com a maior parte do que é produzido sendo de vinho de mesa.

Municípios do Vale do Rio Tijucas, como Nova Trento e Major Gercino também têm produção alta também de vinho de mesa, com as principais uvas sendo as Bordôs e as Niágaras. O Oeste, o Sul e a região de Blumenau concentram vinícolas de pequeno porte que também produzem esse tipo de vinho e os vinhos finos, assim como Urussanga e Pedras Brancas, que focam ainda também no oriundo da uva Goethe.

Já as regiões mais altas, como São Joaquim, Urupema, Uribici e Bom Retiro, na Serra praticam a viticultura de altitude. São vinhos finos, que vão o mercado premium, com alto valor agregado e foco na qualidade para agradar a um público mais exigente. Entre as variedades estão as uvas Cabernet Sauvignon, Merlot, Chardonnay e Sauvignon Blanc.

A Epagri tem dois grandes setores que trabalham juntos na área, sendo os de pesquisa e extensão rural, esta última com escritórios municipais onde são atendidos os produtores de uva com questões mais técnicas.

Na pesquisa, são três estações experimentais: Videira, São Joaquim e Urussanga. Nesse sentido, a enologia entra com estudos na parte de condução de vinhedos, novas variedades de uvas, e tecnologia de processamentos, entre outros.

"Muitas variedades de uvas foram difundidas pelas estações de pesquisa que geraram tecnologia que permitiram que se mantivessem as variedades tradicionais. Na região de São Joaquim, a pesquisa da Epagri foi o que deu o pontapé inicial nesse vinho de altitude. Os primeiros empresários que investiram nessas vinícolas, investiram a partir de informações preliminares da Epagri", disse Stevan.

"O vinho é uma bebida muito relacionada ao consumo em casa. E o pessoal ficou mais em casa e começou a tomar mais vinho", disse Arcari.







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