O reencontro: repórter visita D. Ilaídes três meses após abraço marcante

09 Março 2017 10:36:37

Mãe do goleiro Danilo, que faleceu no acidente com a delegação da Chapecoense, reencontrou repórter do SporTV após emocionar o país com mostra de compaixão

SporTV.com
5841af5a96e19.jpeg
Foto: LANCE

O dia 29 de novembro de 2016 ficará marcado para sempre no coração de todos os amantes de futebol, por conta do acidente envolvendo o acidente com o avião com a delegação da Chapecoense, que vitimou 71 pessoas. Três dias depois, outra história ficou marcada. Durante o velório coletivo realizado na Arena Condá, em Chapecó, Guido Nunes, repórter do SporTV, perguntou a Dona Ilaídes Padilha, mãe do goleiro Danilo, uma das vítimas do acidente, como ela se sentia. A reação foi surpreendente, com a pergunta de Ilaídes sobre o sentimento do repórter em relação à morte de colegas jornalistas, seguido de um pedido de um abraço "em nome da imprensa".

A cena marcou a cerimônia e mostrou a força da mãe do goleiro, que ficou na mente de todos. Desde então, Guido e Ilaídes não conseguiram se encontrar novamente desde aquele dia. Os personagens daquele abraço marcantes se reencontraram agora, pouco mais de três meses depois. O reencontro foi mostrado no "Planeta SporTV" desta quarta-feira.

O esperado novo abraço veio logo no portão da casa da mãe de Danilo, em Cianorte (Paraná). No início, uma refeição reforçada, com pães, queijos e café. Na sequência, as conversas sobre aquele dia tão marcante para ambos. O sorriso atual de Ilaídes não se confunde com lágrimas passadas. Segundo ela, estas não vieram.

- Eu não cheguei a chorar, desabafar, entrar em desespero. Quando eu fui lá para Chapecó, uma psicóloga falou para mim que eu estava fugindo. Na verdade, você vê, eu fui para o Rio de Janeiro duas vezes, fui para São Paulo, para Santa Catarina três vezes, isso em um período de 15 dias, fui para Londrina para os jogos de comemoração. Me chamavam para ir em algum lugar e eu largava tudo, daí ela falava: Por quê você está fugindo? De quem? Então, eu não conseguia ficar aqui. Aqui eu estava esperando ele chegar. Então, não dava para ficar - comentou.

Três meses depois, Ilaídes resolveu enfrentar seus medos e voltou a sua casa. Explicou quais foram os pensamentos que lhe deram a força necessária para enfrentar o dia-a-dia após a morte do filho.

- Eu falo sempre assim: "O mundo não para de girar para a gente deitar em uma cama e esperar passar a dor". Não para. Você vai levantar, e as coisas lá foram continuaram. Só você parou. Então, é justo para você deixar as coisas girarem, o mundo passar, as contas chegarem, você perder seu serviço? Eu tenho amiga minha que perdeu filho, entrou em desespero, foi parar em um sanatório, fico louca. Aí o marido não suportou aquilo, perdeu o marido, perdeu a casa, perdeu a vida. Para recomeçar é muito difícil, porque além do sofrimento que você vai carregar, você tem que carregar o sofrimento de perder o resto. Então eu não quero isso para mim, não vai mudar nada na minha vida eu parar aqui. Eu vou sofrer para o resto da minha vida, vai ser uma dor sem fim. A saudade é muita, mas eu vou ter que viver, eu não vou morrer, vou? Não dá para esperar a morte chegar - concluiu, já com a voz embargada. 

Após a conversa, uma pausa: hora de trabalhar. Ilaídes levanta e vai até a padaria, garantir a alimentação dos funcionários da rádio onde trabalha. Com os colegas de trabalho, o sorriso se mostra com maior frequência. Entre as brincadeiras, conversas e "invasões" ao programa de Natal Reis, locutor da rádio, a mãe de Danilo recupera a felicidade. Ilaídes conta que recebia ligações de pessoas que não a conheciam, mas que diziam tê-la visto durante um dos programas, sempre desejando força. Além disso, vê nos colegas de trabalho uma parte fundamental de sua recuperação.

- Foram eles que me ajudaram muito nessa difícil missão que é passar por isso que eu estou passando. São muito parceiros, irmãos mesmo. Lá eles abraçam a gente e seguram no colo mesmo - afirmou.

Por falar em abraço, Ilaídes contou a Guido Nunes a razão pela qual decidiu tomar a atitude de responder uma pergunta com outra igual, o que acabou gerando a cena marcante. Ela conta que a insistência de outros repórteres na mesma questão foi o que a levou a tomar esta atitude.

- Todo mundo botava o microfone e dizia: "Como é que a senhora está se sentindo?". Acho que todos eles fizeram a mesma pergunta, por isso que eu perguntei para você - admitiu, brincando ainda com a surpresa de Guido Nunes ao fazer a pergunta, já que as mesmas se repetiram frequentemente no caso dela.

Ilaídes conta que a atitude tomada com o jornalista do SporTV foi algo normal, visto que teve que passar por outras situações parecidas, com a perda de outros parentes e pessoas importantes. Uma cartilha que fez com que ela aprendesse "de cor e salteado" como lidar com este tipo de situação.

- Não fiquei surpresa com a minha atitude com vocês. Para mim é uma atitude normal a de acolher os outros. Eu já passei por muitas mortes, as mais importantes. As pessoas mais queridas eu já perdi. Tenho muitas queridas ainda, mas aquelas bem importantes eu já fui perdendo no decorrer da minha vida. Então esse momento eu já sabia de cor e salteado como eu ia ter que atravessar. Que foi difícil, foi, mas eu precisava te perguntar - comentou, em um misto de emoções.

Na parede do quarto onde concedia a entrevista, pinturas, quadros e troféus de seu filho. O "memorial", reunido por Dona Ilaídes junto com o pai do goleiro, Eunício, com a irmã, Daniele e com o cunhado, Júlio, guarda todos os principais momentos da vida do arqueiro em um só lugar, em uma casa em Cianorte, no interior do Paraná, cidade vizinha de Jussara, onde nasceu. Para Ilaídes, um local especial e triste.

 - É especial para mim ter essa memória dele aqui. É triste, toda vez que eu vejo meu marido levantar cedo, abrir esse quarto aqui e começar a chorar, não é fácil. Eu ainda falei para ele: "Vou desmanchar esse quarto, vou tirar isso tudo daqui". E ele falou: "Não, não dá não, tem muita gente que ainda quer ver, as pessoas querem chegar aqui e ver o cantinho dele que a gente fez". Mas é bem difícil a gente entrar aqui e sair sem se emocionar. Eu tenho orgulho, muito. De um filho atleta, todo mundo tem orgulho - confessou, apontando e segurando os objetos dentro do quarto.

Para Ilaídes, a vida continua. O filho, eternizado dentro do coração da mãe e daqueles que gostam de futebol, mostra para ela que a vida dele não foi em vão. Já os pertences, uma forma de manter a memória de Danilo viva e continuar vivendo da mesma forma simples de antes do acidente. No fim, um novo abraço de Guido Nunes em Dona Ilaídes, demonstrando mais uma vez a força de uma mãe que perdeu seu filho em um acidente aéreo, além de um convite para uma nova visita.

Enquete

Quanto você pretende gastar com presentes neste fim de ano?

Até R$ 100,00
Até R$ 200,00
R$ 300,00 ou mais

Apresentar resultado





SOSDesaparecidos.fw.png


https://www.facebook.com/imprensa.povo/
nova logo marca.png

Rua João Pessoa, 2231 | Pinhalzinho | 049 3366-3910

Copyright © 2011. Todos os direitos reservados | Associação dos Jornais do Interior de Santa Catarina