O dom de benzer

Tradição une sabedoria, conhecimento em plantas medicinais e fé

Imprensa do Povo
Foto: Imprensa do Povo

No início das manhãs e no final das tardes a casa da dona Ignes Spada, moradora de Pinhalzinho, fica movimentada. Pessoas do município e da região vão até a senhora de 86 anos em busca de cura. Por meio de orações e simpatias, a benzedeira se apoia na fé para tratar diversos tipos de problemas, que vão desde "quebrante" em bebês a dores variadas em adultos. "Eu não faço nada, quem faz é Deus", afirma.

A tradição de benzer ainda é comum no interior de Santa Catarina. Geralmente é passada de geração em geração, mas, no caso de dona Ignes, começou por influência de uma cunhada ainda quando era muito jovem e morava na cidade natal, em Erechim, no Rio Grande do Sul. Lá, começou benzendo bebês de quebrante (uma espécie de mau olhado que perturba o sossego da criança). Se mudou para Xaxim, no Oeste catarinense, e benzia vez ou outra até que, um dia, por volta dos 30 e poucos anos, resolveu abraçar o que acredita ser um dom.

"Em Xaxim eu conheci uma senhora que era muito pobre e morava em uma estrebaria. Todo dia eu arrumava um pratinho de comida e encaminhava pra ela. Um dia me deu uma dor de cabeça tão forte, acho que foi um sinal de Deus para me encaminhar nesse serviço, e eu não fui levar comida, fiquei em casa deitada. Umas horas eu fui caminhar na frente de casa e ela me chamou, disse que não tinha me visto cedo. Aí eu falei que tava com muita dor de cabeça e ela pediu uma garrafinha de água e um pano branco. Sentei perto da porta e ela me tirou a dor. E daí ela perguntou se eu não queria ficar no lugar dela porque estava velha e ia morrer. Aí eu disse que não sabia, mas ela sentiu que eu podia fazer e aí eu sentei na mesa e ela, do lado meu lado e em pé, me receitou todas as orações e eu copiei. Depois, fui decorando e quando vim pra Pinhalzinho não parei mais", conta.

Antes de se mudar para Pinhalzinho, em 1970, pois havia passado em um concurso público do Estado, ela morou em Xanxerê, mas foi na Capital da Amizade que o ofício de benzer ganhou força. Dona Ignes dividiu a rotina entre a carreira de servidora pública, trabalho em casa e o benzimento até se aposentar. Agora, a viúva, mãe de cinco filhos (uma já falecida), avó de nove netos e bisa de nove bisnetos, se dedica apenas ao exercício de seu dom.

Ela atende de segunda a sexta, das 8h às 10h e das 17h30min até o último cliente. Benze contra bichas, dor de cabeça, alergia, dor de garganta, mal jeito, medo, susto, ciático inflamado, erisipela, amarelão. Sua fé é em Deus e devotada em Nossa Senhora e nos santos. Mas, segundo ela, em algumas das simpatias que exigem que a pessoa reze também, cada um pode orar de acordo com sua religião. "Às vezes precisa que a pessoa reze um Pai Nosso e três Ave Maria, mas a pessoa pode rezar conforme a igreja dela, com o que ela acredita. O importante é ter fé. Deus é um só, está sempre presente. Pode rezar a hora que quiser que Deus está sempre junto", destaca.

Até o momento, ninguém da família de dona Ignes manifestou o dom do benzimento, nem mesmo pessoas de fora que já a procuraram com interesse em aprender. "Se não tem o dom, não adianta querer, tem uns que até tentam, mas não dá certo. A gente nota se a pessoa tem tendência pra isso, se tem o dom. É um talento que Deus dá, tu exerce ou não".

Mas ela não pretende deixar a tradição desaparecer. Diz que vai anotar em um caderninho todas as orações que sabe, já que para cada mal há um tipo de reza, e colocar à disposição de quem tenha o dom e queira aprender. "Eu quero ajudar as pessoas. E se ajuda, é porque a pessoa também tem fé. Com Deus a gente pode pedir o que quer. Se tem fé, alcança", conclui.


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