Carnes podres e uso de produtos cancerígenos: o que a PF encontrou na operação contra frigoríficos

17 Março 2017 13:56:35

Na mira da PF, estão a BRF Brasil, dona das marcas Sadia e Perdigão, e a JBS, dona da Friboi, Seara e Swift, entre outras marcas

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Foto: Tadeu Vilani / Agencia RBS
Carne imprópria para consumo era vendida no Brasil e exportada para outros países (foto ilustrativa)

Carne vencida, com excesso de água, armazenada em temperaturas inadequadas, sem inspeção e com uso de produtos cancerígenos em doses altas com objetivo de ocultar as características que deveriam impedir o consumo. Essa é a conclusão a que chegou a investigação de quase dois anos da Polícia Federal, que levou à realização da maior operação da história da corporação nesta sexta-feira, batizada de Carne Fraca.

Na mira da PF, estão gigantes do setor de carnes no país, como a BRF Brasil, dona das marcas Sadia e Perdigão, e a JBS, dona da Friboi, Seara e Swift, entre outras marcas, além de frigoríficos menores. Todas as empresas investigadas cometeram ao menos uma das irregularidades apontadas acima envolvendo produtos vendidos no mercado brasileiro e também exportadas para outros países.

No frigorífico Peccin, do Paraná, a investigação atestou, entre diversas irregularidades, a utilização de quantidades de carne muito menor do que a necessária na produção de seus produtos, que eram complementados com outras substâncias, e a utilização de carnes estragadas na composição de salsichas e linguiças. Conforme o juiz, a "maquiagem" dos alimentos podres era com ácido ascórbico, substância cancerígena cujo efeito é a melhora da cor e o aspecto de alimentos impróprios.

Na mesma empresa, uma escuta telefônica confirmou que era utilizada carne de cabeça de porco na composição de embutidos. Mesmo cientes de que isso é proibido, um funcionário ordena que sejam comprados 2 mil quilos do produto para a fabricação de linguiças. Veja um trecho da escuta:

Idair: "Mas é proibido usar carne de cabeça na linguiça..."
Nair: "Tá, seria só 2000 quilos para fechar a carga. Depois da outra vez dá para pegar um pouco de toucinho, mas por enquanto ainda tem toucinho."

Há também relato de pressão para liberação de um lote contaminado com Salmonella, da empresa Rio Verde, além de remessas de frango com papelão.

"A conclusão a que se chega é a de que a menor das preocupações que possuem é a de inspecionar a adequação aos parâmetros de qualidade dos produtos que depois serão consumidos por brasileiros e, nos casos de exportação, por estrangeiros", apontou o juiz federal Marcos Josegrei da Silva.

A OPERAÇÃO

Considerada a maior operação já realizada pela PF na história, cerca de 1,1 mil policiais federais cumprem 309 mandados judiciais, incluindo 27 de prisão preventiva, 11 de prisão temporária, 77 de condução coercitiva e 194 de busca e apreensão nas casas e nos locais de trabalho dos investigados.

Os mandados judiciais foram expedidos pela 4ª Vara da Justiça Federal de Curitiba e são cumpridos no Rio Grande do Sul, Distrito Federal, Paraná, em Santa Catarina, São Paulo, Minas Gerais e Goiás. 

Diretores e donos das empresas estariam envolvidos diretamente nas fraudes, que contavam com a ajuda de servidores do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), no Paraná, Goiás e Minas Gerais, que facilitavam a produção de produtos adulterados, emitindo certificados sanitários sem fiscalização.

Através de monitoramento telefônico, a PF descobriu que os servidores envolvidos pediram benefícios de todos os tipos: desde propinas em dinheiro, como pagamento de R$ 300 mil para campanha eleitoral, até pedidos de caixas de carnes, frango, pizzas, ração para animais e embutidos, além também de favores, como a obtenção gratuita de botas e roupas de trabalho, apoio para familiar fazer teste em escola de futebol e viagens.

"Dedo", "luva" e "documento" eram alguns dos termos usados pelos fiscais agropecuários para o pedido de propina. 

A investigação apontou que, inclusive, um executivo da BRF tinha acesso ao login e à senha do sistema de processos administrativos do Mapa, que é de uso exclusivo dos servidores.

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