Refúgio de cuidado e afeto no momento em que mais se precisa

Imprensa do Povo
Foto: Divulgação

A criação de vínculo entre uma família acolhedora e uma criança ou adolescente acolhido é essencial. Esse afeto é o principal diferencial entre o acolhimento institucional e o que ocorre dentro de um lar provisório. Também é o que torna mais difícil o processo de separação quando o acolhido já pode retornar à família de origem, principal objetivo do sistema. Mas é o apego que nasce - tanto da parte da família acolhedora com a criança quanto da criança com a família - que faz com que esse serviço de acolhimento se torne um refúgio completo: além de amparar e garantir os direitos básicos, oferece carinho e amor para alguém que, muitas vezes, nunca conheceu essa realidade.

Em Pinhalzinho, são quatro famílias acolhedoras cadastradas, sendo que três acolhem crianças no momento. Uma delas é a da Denise Dal Forno, que cuida de um menino de 11 meses há cerca de 15 dias. Vindos do Rio Grande do Sul, ela e o marido moram no município há uns cinco anos. Impulsionados a buscar meios de fazer a diferença onde vivem, conheceram o serviço de família acolhedora.

"Para mim, sempre foi importante buscar alguma coisa no sentido de vínculo social, trabalho social, alguma coisa que a gente pudesse contribuir. Porque a gente reclama bastante do sistema mas pouca gente faz algo para melhorar. Eu não fazia ideia que a família acolhedora existia. Eu tinha comentado com umas amigas que queria fazer alguma coisa para crianças, se tivesse uma casa para levar brinquedos, e me relataram como funcionava aqui, que era acolhimento por família acolhedora. Um dia vim aqui [Secretaria de Assistência Social] e a Lia [psicóloga] me explicou como funcionava e aceitamos, porque foi nessa ideia de fazer um trabalho social e voluntário que pudesse dedicar um pouco do nosso tempo, do afeto e carinho", relata a arquiteta e urbanista.

Em dois anos de cadastro, esse é o segundo acolhimento que o casal faz. O primeiro ocorreu três meses após serem habilitados. O menino de sete anos ficou com eles quatro meses e depois foi integrado a uma casa de acolhimento institucional na cidade de origem antes de retornar à família legítima.

"A gente fez tudo o que podia para ajudar ele, criamos um vínculo afetivo bem forte. Quando ele foi, ficamos conversando pelo Whats com as tias da casa onde ele ficou, ele ligava, agora está com a mãe e ainda eventualmente a gente conversa com a mãe. Foi difícil a separação, mas não inviabiliza a ideia de ser família acolhedora, ao contrário. Você percebe que pode fazer sempre melhor", destaca.

A experiência foi tão motivadora para Denise e o marido, que no segundo acolhimento eles toparam o desafio de serem guardiões de um bebê. O casal, que nunca havia tido experiência nesse tipo de cuidado, tem se adaptado à nova rotina. "As pessoas dizem que não sabem como fariam na hora da entrega, que acham legal mas não fariam porque sofreriam na hora de devolver. Se pensar assim, ninguém acolhe. Então, é preferível você ver a criança em uma situação que não é abraçada por alguém que queira dar carinho e afeto por um período e deixar assim até que as coisas se resolvam? Você precisa se colocar em uma posição de prestar ajuda independente da tua dor. Eu chorei vários dias depois que o primeiro foi para casa, me preocupava com ele, o que estaria fazendo, se estava estudando. Vai doer, mas é tão gostoso poder fazer um pouco pelo outro e eu vou continuar. Poderia ter mais gente da sociedade envolvida em uma causa tão importante", observa.

Guardiões do coração

A família acolhedora se torna a família do coração de quem é acolhido. A partir do momento em que a criança ou adolescente dá entrada no serviço, o Estado é responsável por ela e a família se torna sua guardiã legal. Esse trabalho traz inúmeras responsabilidades, uma vez que é dever garantir os direitos do acolhido (saúde, educação, assistência), oferecer um ambiente seguro, além de dar suporte emocional e afetivo.

"A missão maior da família acolhedora é cuidar dentro daquele período. É ser amor, é ser afeto, é ser um pai e mãe de coração durante o período que a criança ou o adolescente necessitam sair de casa por uma situação de violência, negligência, risco. É ser família até que o acolhido possa retornar à família de origem, que é a prioridade. Por isso, só sabe o dia em que acolheu mas não quando desacolhe. Cessadas todas as alternativas, não tem condições, o judiciário vai destituir o poder familiar e aí os caminhos são ou a família extensa ou a adoção", explica a assistente social da proteção social especial de alta complexidade Renata J. Kunzler, uma das técnicas responsáveis pelo serviço de acolhimento família acolhedora de Pinhalzinho.

A prestação de serviços oferecida pela família acolhedora é considerada um trabalho voluntário, porém o Estado repassa um subsídio para que as necessidades do acolhido possam ser providas. "Ela vai dar todo o necessário como se fosse um filho do coração naquele período. A gente dá o suporte com os serviços, a família acolhedora é nossa parceira. Quando acolhe uma criança, a família passa a receber um subsídio para que possa prover as necessidades da criança. Esse valor vai para família e ela que administra. Recebe a partir do momento em que acolhe e deixa de receber assim que desacolhe, é sempre proporcional ao período de acolhimento", informa a psicóloga Liamara W. Cavalheiro, também responsável pelo serviço.

O serviço de acolhimento por meio da família acolhedora é o único disponível em Pinhalzinho. No caso da necessidade de acompanhamento de equipe profissional em tempo integral, o adolescente é encaminhado para acolhimento institucional na região. Segundo as técnicas, historicamente o município sempre contou com a média de quatro ou cinco famílias acolhedoras, mas como a população tem crescido, o trabalho em busca de mais voluntários é constante.

"A intenção é ter famílias acolhedoras cadastradas e habilitadas para quando precisar. Estamos sempre tentando a sensibilização, tentando meios para trazer as pessoas. O primeiro processo é a entrevista. A pessoa agenda e a gente explica como funciona. A pessoa vai para casa, conversa com a família. Se optar por continuar o processo, faz a inscrição. Tem levantamento da documentação, cadastro, estudo psicossocial. Se for aprovada, passa pelo processo de habilitação e preparação", esclarece Liamara.

Quem tiver interesse em conhecer o serviço deve procurar a Secretaria Municipal de Assistência Social. "O acolhimento é algo muito rico. A gente passa por situações que depois a gente olha para trás e vê como evoluiu, o quanto a criança cresceu com a família acolhedora e de origem. Eu considero o acolhimento um espaço riquíssimo nesse sentido, até na construção do ser humano", avalia Renata.







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